Estamira é uma mulher de 63 anos de idade que há vinte anos trabalha no aterro sanitário do Rio de Janeiro. O cenário é a imagem da constante deteriorização do mundo pós-moderno; ele machuca, agride, confunde o personagem inserido nele. Há momentos em que podemos perceber o vento e a forte chuva como que destruindo, levando, todo o resto daquilo que um dia foi envolto pelo fetichismo dos mercados da Internet, dos shoppings, enfim, da mídia; tornando realidade aquele dito de Marx que todo mundo já ouviu e repete sem saber do que se trata: “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A história de Estamira é relatada na medida do necessário, flashes de fotos antigas, relatos de filhos, e lembranças dela mesma. Seu impasse com os remédios psiquiátricos e o medo de ir para o hospício também são trazidos á cena…
O documentário de Marcos Prado trata de dois problemas sociais de longa data, a miséria e a questão da loucura. O que espanta é que o documentário tende à uma grande ficção, a ficção das idéias de Estamira. Para ser sincero, o espectador perde o parâmetro do que é ficção ou realidade pois a coerência de Estamira, que sempre fala com muita autoridade, nos leva a indagar o mundo fora do lixão. Quem são os loucos?
Ditos de Estamira:
A minha missão, além d’eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não.
Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira. E eu me sinto orgulho e tristeza por isso. Porque eles, os astros Negativos ofensivos, sujam os espaço e quer-me. Quer-me, e suja tudo. A criação toda é abstrata. Os espaço inteiro é abstrato. A água é abstrato. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato. Estamira também é abstrato.
A Terra disse, ela falava, agora que ela já tá morta, ela disse que então ela não seria testemunha de nada. Olha o quê que aconteceu com ela. Eu fiquei de mal com ela uma porção de tempo, e falei pra ela que até que ela provasse o contrário. Ela me provou o contrário, a Terra. Ela me provou o contrário porque ela é indefesa. A Terra é indefesa. A minha carne, o sangue, é indefesa, como a Terra; mas eu, a minha áurea não é indefesa não. Se queimar os espaço todinho, e eu tô no meio, pode queimar, eu tô no meio, invisível. Se queimar meu sentimento, minha carne, meu sangue, se for pra o bem, se for pra verdade, pra o bem, pela lucidez de todos os seres, pra mim pode ser agora, nesse segundo, e eu agradeço ainda.
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