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Notas sobre David Lynch.

Postado em David Lynch com as tags em 4 Fevereiro, 2008 por antoniofelipesilva

Há muito tempo a criatividade de David Lynch deixou de ser um ponto cego no que diz respeito ao cinema contemporâneo. David Lynch é um inovador, mas não apenas mais um inovador por entre tantos outros. A marca que Lynch está imprimindo no conceito de cinema ainda não pode ser lida por completo, não possuímos a habilidade necessária para decodificá-los, como um alfabeto ainda desconhecido, não dominado, pertencente de uma cultura estrangeira, em suma: de outro mundo. O que podemos fazer é ressaltar alguns elementos fundamentais sempre presentes na sua obra:

O apogeu do simulacro: Nada é o que parece. O fenômeno quase nunca corresponde à sua causa imediata. A representação e a atuação são as marcas distintivas próprias dos personagens, encarcerados em subjetividades múltiplas e fugidias. Não há essências imutáveis, a natureza parece não existir para ditar suas leis e a consciência é a única realidade perdida na confusão de um sono em que a cada novo despertar adormece ainda mais profundamente.

Identidades Líquidas: O grande problema enfrentado constantemente por Lynch é trabalhar a identidade de seus personagens. Nunca se sabe exatamente quem se é. A questão aqui não é a identidade do outro, que na maioria das vezes aparece como fechada e estanque, mas a identidade do si-mesmo, o “mim” é indefinível e avesso a qualquer tipo de identificação. Para Lynch a proposição A=A nem sempre é verdadeira, a identidade não é uma regra para a subjetividade, pois ela não segue a lógica, não tem leis claras fazendo da descoberta de si sempre um ato traumático.

Realidade x ilusão: Não há fronteiras entre realidade e ilusão. Elas se misturam numa simbiose profunda e íntima constituindo na gama de experiência possível uma complexidade em si mesma factual. É o fato, em si mesmo, realidade. Ele se constitui de fantasia, ilusão, sonho. O real é ele sim a maior falsidade, não por que não existe, não, ele existe, mas porque é inapreensível. Não há vocabulário, palavra que preencha a realidade de significação. Nunca se pode conceber a realidade, num dado sentido, humanamente, a realidade não tem existência, ou o que ela é não faz diferença ou importância, mas o fato, o ‘acontecimento’, a impressão que marca o sujeito, que é verdadeiramente o que se pode dizer sobre o mundo, ou, como se faz ordinariamente, o que se pode chamar de ‘realidade’, com todas as aspas necessárias.

Variados são os filmes de Lynch que ilustram essas notas, Inland Empire (2006), Mulholland Dr (2001), Lost Highway (1997). No entanto, à título de ilustração, selecionei outra espécie de trabalho de Lynch, propagandas. A primeira é o making of de uma perfumaria francesa, a segunda do vídeo game Playstation e a terceira do Nissan Micra:

Gucci by Gucci, making of :

Notemos a dinâmica. O produto, o objeto que deve ser elevado como objeto de desejo pela propaganda só aparece no final. A escolha de mostrar a encenação por trás das câmeras, e não o trabalho final se deve ao fato de podermos olhar a questão em seu método. Lynch, com a câmera em sua próprias mãos, usa e abusa de luz e sombra, da disposição do espaço e da habilidade das duas modelos que fazem suas performances isoladamente com uma trilha ultra pós-moderna. Com imagens sobrepostas as modelos se fundem tornando-se dois lados de uma mesma mulher (lembrando em alguns aspectos Mullholand Dr), com este passo concluído, o produto aparece como o elo perdido de um encontro consigo mesmo. Veja o resultado final:

2º Propaganda Playstation II:

Não é com jogos emocionantes de velocidade, de guerra ou esportes radicais para atrair o consumidor. Lynch não apela para o game, verdadeiro objeto da campanha publicitária, mas apela para a intenção final do produto: tornar acessível ao usuário a experiência com um outro ‘mundo’, um outro espaço de significação, a possibilidade de uma fuga para uma outra concepção de natureza, leis e regras, outra formas de determinação, onde o passivo (cervo) torna-se ativo (Pick-up), o culpado inocente, o real ilusão e a ilusão o real, pois lugares diferentes, regras diferentes.

3º Propaganda do Nissan Micra:

No caso do comercial do Micra, ao contrário do que geralmente se entende por um comercial de carros, onde sempre se mostra um estilo de vida através de um papel performático de um consumidor ideal, Lynch se esforça por querer passar uma imagem de um veículo despojado de qualquer ideal de consumidor. Vemos sombras de pessoas a sair de becos, mais adiante, uma mulher, notemos que sem feição, desprovida de identidade, e o que comunica é uma voz artificial de uma boca digitalizada, impessoal. Talvez impessoal seja a característica nuclear que Lynch parece querer passar. Nissan Micra não é um carro para um tipo ideal de consumidor, não se encaixa em nenhum estereótipo. Lynch vai contra o sentido ordinário das propagandas que tentam seduzir o consumidor através da sedução produzida por um ideal, por uma forma de gozo determinado. Mas como, para Lynch, A nem sempre é igual a A, mostrar um carro desprovido de um dono ideal pode seduzir mais, uma vez que as pessoas já se acostumaram a se frustrar com os ideais que outrora almejaram. David Lynch joga com a verdade transvestida de mentira.

Inland Empire. Dir. David Lynch. 2006

Postado em David Lynch com as tags em 15 Dezembro, 2007 por antoniofelipesilva

Eu não sou quem você pensa!’ Diz o esposo enquanto tenta estrangular sua mulher. Império dos sonhos de David Lynch está repleto de pontos de exclamação que vibram na mente do espectador. Um filme inteiramente gravado numa câmera digital Sony PD-150, tem a vantagem de possibilitar toda a flexibilidade que Lynch precisa para tornar o conjunto tempo/espaço da trama descontínuos, fragmentados, ao ponto da personagem principal dizer atônita: “Eu não sei o que veio antes ou depois. Não consigo distinguir o ontem do amanhã e isso está fodendo com a minha cabeça.”


A história é, em si mesma, pífia, banal e, teoricamente, sem grandes mistérios. O que torna o filme original é sua composição, como não poderia ser diferente quando se trata de David Lynch. Nikki Grace (Laura Dern) é uma atriz em baixa no mundo de Hollywood, mas vê a oportunidade de redenção de sua carreira quando é convidada para protagonizar um filme. No set de gravação entra em contato com um típico galã hollywoodiano com quem dividirá as cenas, o ator Kingsley Stewart (Jeremy Irons). O que ambos não sabiam é que o filme que almejam contracenar é um remake. Apartir desta descoberta dos protagonistas o filme começa tomar rumos espaço-temporais sinuosos. O fato do filme ser baseado numa lenda cigana e dos protagonistas da versão original terem sido assassinados de forma misteriosa assombra a fantasia dos nossos personagens. A ficção se funde com a realidade e se inicia o sonho. Não há controle do tempo, o ontem e o amanhã se tornam um misto confuso e indiscernível, o espaço é constituído por ambientes decadentes, periferias, moteis, casas suburbanas, e neste rodamoinho também o telespectador se torna refém de uma realidade que foge de si mesma, de um sonho que teima em não se concluir, de uma fantasia que beira ao caos.
A busca pela identidade, por um fundamento subjetivo, é inutil. a grande questão é que nunca se sabe bem quem se é. E pior, nunca se sabe quem é o outro. Não há lugar que reflita segurança nem tempo que soe o presente. É tudo líquido. Para Lynch, uma câmera desfocada mostra mais do que imagens nítidas e bem definidas. O indefinido é o modo próprio da substancialidade da trama. Se não se sabe quem se é, não se sabe, igualmente, até onde se pode ir ou o que se pode fazer.

Trailler